Demasiado Humano: Karius e o paradoxo do atleta de alto-rendimento

Karius2

Se hoje um misterioso alguém se aproximasse de qualquer jovem do mundo, e, com um contrato para assinar, garantisse que ele estaria jogando uma final de Champions League contra o Real Madrid, antes dos 25 anos, você assinaria? Eu sim!

Ainda mais por ser sabido que goleiros, entre outros atletas de esportes de resistência,(contém palavra de duplo sentido) como maratona, triatlo e ironman costumam atingir sua maturidade de performance na faixa dos trinta anos. Para fortalecer estre privilégio é importante frisar que nos últimos três anos apenas quatro goleiros – de seis possíveis –  disputaram a final da UEFA Champions  League, o contestado Keylor Navas (hoje com 31 anos) três vezes pelo Madrid,  Oblak (hoje com 25 anos) do Atlético de Madrid, o histórico Buffon da Juventus (38)  e Karius do Liverpool, no dia hoje (24).

Pois bem, ele falhou, duas vezes contra o melhor time do mundo. Não importa se o melhor jogador do seu time saiu lesionado aos 30 minutos do primeiro tempo quando dominavam a partida. Ou se há seis meses atrás ao Grêmio só bastou deixar uns poucos centímetros de espaço aberto na barreira para perder o mundial para essa mesma equipe. Este jovem hoje não vai dormir, e talvez tarde meses para ter outra boa noite de sono. Lembram do Homem-Aranha? Grandes poderes, grandes responsabilidades.

Este pequeno texto (grande para os tempos atuais) é apenas para chamar a atenção a meu tema de vida: psicologia do esporte. Vimos claramente um time experiente em finais contra 11, ou 13 (só houve duas substituições) alguéns que jogavam a partida da sua vida e do seu clube na década. Observei confiança e OTIMISMO x TENSÃO e ansiedade. Independente dos frangos temos 3 gols em que está clara a diferença de MINDSET dos dois times. Enquanto Liverpool jogava um futebol competente, esforçado e dedicado, o Real Madrid fez três gols de quem tem a CONFIANÇA e descontração de quem já foi campeão, recapitulando:

1 – Pressão no goleiro acreditando no erro por Benzema;  quem viu o jogo, ou talvez a Champions toda, não deve ter visto lances parecidos, do centroavante pressionando o goleiro adversário acreditado num erro bizarro. Aconteceu.

2 – Bicicleta de um atleta frio, reserva que recém adentrava o jogo, na entrada da área. Otimismo, confiança e FLOW. Ele fez o que faria em uma pelada, será que algum atleta do Liverpool tentaria isso?

3 – Chute com efeito da intermediária. É muito difícil se fazer um gol sem chutar, talvez por isso, e inflado pelo gol histórico, Bale provou um arremate de longe sem a marcação que protegia a entrada da área como manda o manual de qualquer time disciplinado. Quantos tiros ao gol parecidos o Liverpool tentou? Mesmo desesperado pelo empate do até então 2 a 1? Esse gol acabou com qualquer esperança de empate.

Creio que qualquer time que chegou a semifinais, e mais alguns das quartas, teriam condições de chegar a final. Listando: Real Madrid, Liverpool, Juventus, Roma, Bayer, Barcelona e Manchester City (nem falei do estrelado PSG). Mas a tensão de um time que em sua mente jogava (e jogava mesmo até então) seu jogo mais importante, contra um que estava quase cumprindo sua rotina de decisões (o DÉCIMO-SEGUNDO mata-mata vencido pela esquadra de Zidane em Champions), fez a diferença.

Como no 7 a 1, e em vários outros jogos da “Era da análise tática” e da era da informação, não tivemos “nós táticos”, jogadas ensaiadas ou surpresas para discutir. E sim, a preparação psicológica, sem coletes com chip, SAP, softwares, scouts e etc. No fim de tudo ainda são onze, quatorze, dezoito ou mais de trinta, jogadores com treinadores HUMANOS que vão sentenciar que pôster estará colado nas paredes por décadas.

OBRIGADO Karius, por lembrar ao mundo, mesmo pelo avesso, que em uma sociedade que idolatra máquinas (que falham a todo momento), e atletas que parecem, ou são apelidados assim (quem viu o fenomenal CR7 nessa final?) que o grande jogo está, não entre quatro linhas, e sim entre várias duas orelhas de cada um dos atores desse esporte demasiado humano.

PS. Lembram desse recordista Zidane na Copa de 2006?

 

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Sobre mauriciopmarques

Psicólogo, PhD e mestre pela Universitat Autònoma de Barcelona e especialista em psicologia do esporte pelo CFP - Conselho Federal de Psicologia. Psicólogo do Belém Novo Golf Club, Redemption POA s-sports (LOL) e consultório. Estágios e trabalhos em Grêmio, Coritiba, Aimoré, GNUnião, Espanyol e Liverpool.
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